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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Caleidoscópio

 
Acho que todo mundo deveria ter crise de adolescência. Eu acho, mas não tive.
Sei lá, fazer alguma besteira, surtar, colocar a vida em xeque. Depois, fica muito difícil fazer isso. Fica difícil chutar o balde, espernear. 
Se você é adolescente tem uma desculpa, faz parte, é uma fase, são os hormônios. Tão simples! Se sua adolescência terminou há muito tempo? Ah, pedeu a oportunidade. Eu perdi.
Talvez a crise dos quinze anos tivesse evitado a "crise" dos vinte e poucos.  Uma "crise" que não é uma crise de verdade. Aos vinte (mais para os trinta), você se torna tão auto-crítico, tão intolerante consigo mesmo que nem se dá o direito de chamar isso de crise. 
Você, ser sensato, responsável, com contas pra pagar, tem que saber que rumo dar para sua vida. Afinal, que rumo? Não existe mais o tal de "O que você vai ser quando crescer?". Cresceu, agora é. Pode não saber o que, mas é. Um questionamento, uma cobrança sua consigo mesmo. Cruel, implacável. Um "E agora, José? E agora, você?". 

Fico me perguntando "Afinal, quem sou eu?". A pessoa que banca sua própria cerveja? Há sete anos atrás eu nem bebia e muito menos pagava, o salário não permitia. A Carmen que escreve contos? Essa aí também ficou pra trás (ou não)... A que desenha? Que escreveu o TCC nas madrugadas e atualmente quase morre para escrever três páginas da dissertação em uma semana? A que ia casar com vinte e cinco anos e hoje passa mal só de pensar se um dia tiver que colocar o status "relacionamento sério" no facebook? A menina que não ia sozinha nem na padaria e um dia pegou um avião pra Porto Alegre? A Carmen sorridente do retrato ou a que tem vontade de estraçalhar o celular quando ele desperta na manhã de segunda-feira? A que tem que mostrar o RG para entrar em uma festa ou a que lamenta os primeiros fios brancos? Sou mais sonhos ou desilusões? Quem é essa que escreve? 
A que não surtou na adolescência, isso é fato.
Uma pessoa que sempre achou e ainda acha que tem todo o tempo do mundo, mas contraditoriamente, quer fazer tudo aqui e agora. Aquela que já fez tantas coisas e ainda não fez nada! Francamente.
Devo ser um caleidoscópio, feita de fragmentos. Do tempo, do espaço, de sins e nãos. Fragmentos de mim mesma.