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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Noite de São João

Para terminar o mês de Junho, aí vai um texto que estava na gaveta...
Pintura de Alfredo Volpi

          Era uma noite fria de São João, quando Isabel desembarcou na pequena estação ferroviária daquela cidadela, no interior de Minas Gerais. A cidadezinha estava iluminada pela lua e pelo céu estrelado. Naquele tempo, em que não existiam tantas luzes nas cidades como hoje, o brilho das estrelas era mais intenso, o que tornava as noites interioranas muito mais sedutoras. Isabel tinha cabelos castanho-escuros, cacheados e presos por um laço de fita de cetim, estava com um casaco de lã verde-escuro, luvas beges, chapéu de palha e botas de montaria para se proteger do frio, vestia-se de forma ousada para uma época em que a maioria das mulheres ainda usava vestidos e saias.
            Isabel desceu os degraus da estação, abriu sua maleta e começou a tatear seu interior a procura de um algo. Caminhou até a calçada e, apressadamente, abriu um papelzinho todo dobrado. Imediatamente, seus olhos correram a procura de uma placa que indicasse o nome da rua onde estava para conferir se era o mesmo endereço que tinha nas mãos. Antes mesmo que terminasse, ouviu uma voz lhe chamando:
            - Prima, prima!!
            Era a sua prima Fátima, lhe acenando do outro lado da calçada, acompanhada por um rapaz. Fátima era muito bonita, com cabelo dourado na altura dos ombros, um corpo bem esculpido, realçado no vestido cor maravilha e um sobretudo preto. Rodrigo era o que se chamava de boêmio, usava um terno bege, sapatos bem engraxados, chapéu de palha, barba por fazer e profundos olhos castanhos.
            Isabel pegou as malas e saiu correndo em direção à sua prima. Tão logo atravessou, colocou as malas no chão e pôs-se a abraçá-la.
            - Que saudade!!! Como é bom reencontrá-la, prima!
            - Nem me fale, Isa. Não víamos a hora de encontrá-la. Aliás, já estávamos preocupados com a demora.
             - Ah, foi o trem que atrasou.
            Enquanto isso, o rapaz aguardava encostado na parede da Padaria da Estação.
            - Rodrigo, venha cá, quero apresentar-lhe minha prima. Isa, este é Rodrigo, meu amigo, companheiro de boemias e serestas. - disse rindo.
            Rodrigo aproximou-se de Isabel, tirou o chapéu e disse:
            - Bem vinda à cidade dos sonhos, moça!
            Isabel estendeu-lhe a mão e disse sorrindo:
            - Muito prazer, cavalheiro.
            - O prazer é meu. - disse inclinando-se para beijar-lhe o rosto.
            Isabel ofereceu-lhe o rosto e, antes que soltasse suas mãos, Rodrigo disse:
            - Ah, aqui é diferente, são dois beijos! E beijou-lhe o outro lado da face.
            Realmente aquele lugar era diferente, um lugar de pessoas alegres, de bem com a vida, nada parecido com a casa sombria onde Isabel vivia. Era um lugar mágico que incendiava a sua imaginação, tal quais as labaredas da fogueira adiante clareavam a praça, enfeitada com bandeirinhas das mais diversas cores, iluminada pelos balões e pelas estrelas.
            Os três caminharam para a praça, Rodrigo carregava as malas enquanto Isabel olhava encantada para as pessoas e para todo aquele colorido. Antes que seguissem para casa, Fátima, vendo o encantamento da prima, sugeriu que ficassem na festa.
            Isabel adorou a idéia, a festa era uma boa oportunidade para familiarizar-se com a cidade. Ela tinha vindo do Rio de Janeiro para morar com Fátima e tia Olívia, numa casinha modesta no interior de Minas. Tia Olívia tinha uns cinquenta anos, viúva, era costureira conhecida na cidade. Fátima era conhecida também, não pelo dotes como costureira, mas pelo sucesso com os rapazes. Ela gostava de conversar com os estudantes no Bar das Serenatas. Conhecia Rodrigo de lá, eram grandes amigos e reuniam-se com outros jovens para cantar, tocar e recitar poesias. Fátima tinha uma vida completamente diferente da sua prima, a liberdade para ser o que quisesse.
            Ao chegarem à praça, encostaram as malas em uma barraca de doces, pois antigamente não precisavam preocupar-se com roubos. Todos na cidade se conheciam.
            - Venham, vamos dançar! – gritou Fátima, puxando a prima e o amigo pelas mãos e se embrenhando no meio da multidão.
            Rodrigo passou os braços pela cintura de Isabel, pegou uma das suas mãos e disse:
            - Dança comigo?
            - Hum, vou pensar! – respondeu Isabel, como se analisasse a situação.
            Nesse momento, saíram dançando pela praça ao som das músicas juninas tocadas no violão e na sanfona. Dançaram várias músicas consecutivas e, embalados pela dança, conversavam sobre a vida e suas predileções artísticas. Tinham muitas coisas em comum. Assim como Rodrigo, Isabel gostava de música, mas não sabia tocar nenhum instrumento, apenas compunha.  Rodrigo tocava violão. Nesse aspecto, completaram-se, letra e música.
            Enquanto isso, Fátima divertia-se nas barracas. Experimentava as mais diversas guloseimas, participava das brincadeiras e, vez ou outra, um menino vinha lhe entregar os correios elegantes que os rapazes lhe mandavam. Divertia-se com isso, mas não respondia nenhum, não se importava com os rapazes, era amante da liberdade. De longe, observava a prima e o amigo.  Correu para abraçá-los.
            - Vocês dois, heim! Já estou vendo tudo.
            - Deixe de bobagem, prima! Assim você me envergonha – disse fingindo-se constrangida.
            - Vai começar a quadrilha, vamos dançar!
            Juntaram-se aos outros dançarinos, jovens e crianças. Começou a quadrilha. Cavalheiros cumprimentam as damas, damas cumprimentam os cavalheiros e assim por diante. Os casais se afastavam e se juntavam durante a dança. As marcações da quadrilha acompanhavam as batidas dos corações de Isa e Rodrigo. Olha a chuva, já passou. A grande roda. Caracol. Rodrigo e Isabel entreolhavam-se de braços dados, riam, virando-se para um lado e para outro, naquele vai-e-vem da quadrilha. Aos poucos a dança foi acabando, até chegar a hora da despedida. Os mais velhos aplaudiam e divertiam-se observando os novatos. Quanta alegria, os moradores daquela cidadezinha tinham o sorriso fácil.
            Enquanto todos os olhares voltaram-se para o céu e encantavam-se com a queima de fogos, Rodrigo pôs-se em frente a Isabel e surpreendeu-a com um beijo. Isa não esperava tal atitude, mas assim como a cidade, seu coração encheu-se de alegria. Realmente, aquela era a cidade dos sonhos. Saíram do meio da multidão, continuaram a conversar e observar o céu, entre um beijo e outro.
            Naquela noite de São João, um sentimento intenso tomou conta de Rodrigo e Isabel. Daquele momento em diante, tornaram-se amigos e parceiros na música. Gostavam-se, mas não se casaram, preferiram viver livres para voltar aos braços do outro quando quisessem. Envelheceram juntos e não perdiam uma festa de São João na cidade.  Continuaram vivendo para a música e para a poesia, acompanhados pelos amigos e pela prima Fátima.
            Hoje também é noite de São João, mas Rodrigo não tem mais Isabel ao seu lado. Agora acompanha as festas de São João pela janela de casa e, olhando para o céu, fica imaginando em qual estrela estará sua Isa. Lembra-se com nostalgia dos tempos da mocidade, ao som da música que a sua amada mais gostava:
           
             “Olha pro céu meu amor
            Vê como ele está lindo
            Olha praquele balão multicor
            Como no céu vai sumindo

            Foi numa noite, igual a esta
            Que tu me deste o teu coração
            O céu estava, assim em festa
            Pois era noite de São João”.[1]



[1] Trecho da música “Olha pro céu”, composição Luiz Gonzaga e José Fernandes.

Um comentário:

  1. Ah meu blog voltou e ainda esta reforma mas espero vc lá pra dizer o que achou, saudades de voce viu flor!

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