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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tarde de verão


– Lívia, preciso falar com você.
– Ah não... Isso é hora de ligar para alguém em um domingo? – respondeu Lívia bocejando e espreguiçando-se na cama.
– Mas são quase duas horas da tarde! – indignava-se a voz do outro lado da linha.
– E daí? Eu nem acordei direito, como você é chato! Tchau.
– Lívia, por favor... É sério!
– É sério mesmo, estou falando muito sério. – e bateu o telefone no gancho.
Após virar-se para o outro lado da cama, puxando o edredom que estava quase no chão e colocando-o na face para esconder-se dos raios de sol que atravessavam a cortina da janela de vidro, ouviu o telefone tocar novamente.
– Não é possível! – disse colocando o travesseiro sobre os cabelos desgrenhados e pegando o telefone. – Alô! Eu já disse que não vou falar com você agora!
– Lívia, você pensa que está falando com quem?
– Aham... Desculpe Leonardo. Bom dia, tudo bem? – disse tentando recuperar a voz rouca.
– Boa tarde! Estava na esbórnia, não é?
– Se trabalho chama-se esbórnia agora, pode-se dizer que sim.
– Brincadeira... Estou ligando para te avisar que teremos reunião amanhã às sete horas.
– Notícia boa, heim!
– É a labuta, sócia. Mas e aí, quem te ligou que você já estava estressada?
– Humpf! Nada de mais.
– Garanto que foi o Alessandro. Aposto que ele levou algum “olé” e lembrou–se de você.
– Nem sei, desliguei o telefone.
– Escreve o que estou te dizendo sócia, já falei que se você quiser essa história acaba...
– Hahaha... Ok Léo. Amanhã a gente se fala. Beijo, tchau!
– Tchau!
Leonardo trabalhava no mesmo departamento de Lívia na redação do jornal, pensavam em criar uma revista, por isso a chamava de sócia. Alguns amigos diziam que não a chamava assim só por causa da revista, mas que também queria ser seu sócio na vida pessoal. Era evidente, às vezes lançava mão de algumas investidas despretensiosas para conquistá-la, mas ela fazia-se de desentendida.
Lívia levantou-se da cama, ainda sonolenta e calçou os chinelos. Tinha ficado até de madrugada em frente ao computador terminando uma matéria para o jornal sobre a reinauguração do teatro municipal. Ela não gostava de levar trabalho para casa, mas como lhe pediram a matéria na tarde de sexta-feira, não teve outro jeito. Revoltava-se ao pensar que, sutilmente, a exploração capitalista manifesta-se em suas relações de trabalho, pois, quase sem perceber, continuava presa às tarefas laborais após o expediente, sacrificando ainda mais os pequenos momentos de descanso. Já não tinha hora certa para dormir, para acordar e nem para fazer as refeições. Antes mesmo que lavasse o rosto, o interfone tocou e ela foi até a sala para atender.
– Lívia, sou eu. Preciso falar com você.
– Ah, meu Deus! O que eu fiz para merecer? – disse, lembrando-se das palavras de Leonardo.
– Por favor, só hoje.
– Sobe, vai.
Alessandro trabalhava no mesmo jornal que Lívia, era fotógrafo há bastante tempo e estava sempre viajando, fotografava desde desfiles de moda às guerras no Iraque. Enquanto entrava no elevador para ir ao apartamento de Lívia, ele pensava no que ela havia lhe falado sobre Sonia há pouco mais de um ano “Essa história não vai dar certo, estou avisando”. De nada adiantou o conselho da amiga, Alessandro achava que era apenas um ciúme bobo de Lívia e resolveu morar com Sonia, uma ex-modelo deslumbrante no auge de seus vinte anos que conheceu em Milão, mesmo sabendo que era uma moça leviana e impulsiva, que mais cedo ou mais tarde mudaria de ideia como quem troca de roupa. E mudou. Mas o que poderia fazer? Quando conheceu Sonia, sentiu-se embriagado por sua beleza e juventude. Para ele, que já havia passado dos trinta anos e não era mais um garoto, estar ao lado de Sonia fazia bem para seu ego, mas não lhe trazia paz. Agora ele estava dentro do elevador com uma mochila nas costas, a mala nas mãos e ao lado do seu cão labrador, sem casa e sem ninguém, prestes a se despedir de uma velha amiga. Dentro de algumas horas estaria na França para fotografar a exposição de um pintor famoso.
Lívia lavou o rosto e escovou os dentes tentando descobrir porque Alessandro tinha tanta urgência em falar com ela. Ligou o rádio, vestiu-se com um vestido florido, como sugeria aquela tarde de verão e prendeu os cabelos castanhos com displicência, quando ouviu duas batidas na porta e um latido. Quando ela abriu a porta, Fred pulou em suas pernas e, antes mesmo de pedir para que Alessandro entrasse em seu apartamento, ela agachou e pôs-se a abraçar o cachorro como se fosse uma criança.
– Que delícia de cachorro! Que bom te ver, cara... – nesse momento lembrou-se que Alessandro estava parado em sua porta, levantou os olhos e disse – Entre.
Só então percebeu que alguma coisa estava errada. Alessandro, as malas, o cachorro. Sentou-se no sofá e disse:
– Por que tanta pressa? Vai tirar o pai da forca?
– Não tem graça, Lívia! Você sabe o que aconteceu. – disse apontado para as malas e para o cão.
– Não, não sei. E não estou entendendo.
– Bom, então vou falar com todas as letras. Sonia terminou comigo há dois meses, surtou e disse que era para eu sair do apartamento.
– Jura? – dizia com ar de deboche.
– Não finja que está surpresa, você falou isso desde o começo. Eu, idiota, não quis escutar.
– Ah, agora estamos falando a mesma língua. Concordou comigo ao menos em uma coisa. Eu te avisei e quem avisa...
– Eu sei, mas o que posso fazer?! Aconteceu.
– E porque está aqui, com mala e cachorro?
– Passei para me despedir, daqui a pouco viajo para a França, vou cobrir uma exposição de artes. Passei um tempo dividindo um apartamento com um amigo.
– E o seu apartamento?
– Vendi, sempre achamos que essas coisas durarão para sempre...
– Hum... Entendi. Seu “para sempre” veio com prazo de validade, não é?
– Não tem graça. Achei que daria tudo certo.
– Mas qual foi o surto da moça “à milanesa”? – perguntou Lívia referindo-se à Sonia.
– Sei lá! Você acha mesmo que eu consigo entender?
– Você tem alguns defeitos, mas nada muito grave. Tudo bem que não sabe a diferença entre um escarpim e uma sapatilha, não distingue um terno de um smoking, vai à padaria de bermuda e chinelo... – disse enumerando os defeitos nos dedos das mãos e contendo o riso. – Vai saber se esses detalhes não a incomodavam.
– Engraçada.
– Ah! E daí que você não sabe o sentido dos ponteiros do relógio? Isso não tem nada a ver... – dizia rindo da situação de Alessandro.
– Eu sei o sentido dos ponteiros do relógio sim!
– Não precisa mentir pra mim vai, te conheço faz tempo. – disse em tom de brincadeira, tocando a palma da mão direita de Alessandro.
– E sei a diferença entre muitas coisas, inclusive entre você e Sonia. – disse fechando as mãos de Lívia. – Sei também que esta é sua música predileta “Ela vem sempre tem  esse mar no olhar...” – referindo-se à canção que tocava no rádio.
Alessandro levantou-a pelas mãos, passou os braços em torno de seu corpo e conduziu-a junto a peito, embalando-a no ritmo da música, encostando seu rosto no de Lívia. Ele sabia que ela era seu porto seguro, que estaria lá para quando precisasse. Não sabia definir o que sentia por Lívia, mas queria acreditar que ela estaria sempre pronta para recebê-lo embora não acreditasse que pudesse tê-la por toda vida. Dançaram lentamente, ele sabia como conquistá-la. Queria reencontrá-la a cada volta ou antes de cada viagem, até o dia em que se aquietaria ao seu lado.
As mãos de Alessandro deslizavam pelas costas de Lívia, que sentia um arrepio na espinha. Um dia ela até pensou em um futuro ao lado dele, talvez experimentar o sentimento estável de compartilharem suas vidas, mas temia não cativá-lo da forma como desejava. Para Lívia, Alessandro foi feito para o mundo e tê-lo ao seu lado seria como prender um pássaro numa gaiola e impedí-lo de voar, nisso não via beleza. Nesse momento, o rapaz ergueu o queixo de Lívia e beijou-o levemente. Lívia riu, sabia que aquilo era apenas uma brincadeira, um pequeno deleite em uma tarde de verão. O cachorro permanecia deitado no tapete, a observar a cena como se assistisse a um filme.
A paz que Alessandro encontrava nos braços de Lívia era o que mais gostava. A paz presente no retorno, no reencontro. Isso se perderia caso permanecessem juntos. Será? Não sabia. Finalmente a música acabou e, como se despertasse de um sonho, o rapaz lembrou-se que deveria estar no aeroporto dentro de trinta minutos. Lívia o acompanhou até a porta e afagou o cachorro.
– Boa viagem, correspondente do Brasil na França!
– Obrigado. Passo aqui quando voltar.
– Fique esperto, o prazo de validade deste “para sempre” também pode acabar. – disse Lívia erguendo-se nas pontas dos pés, beijando-lhe a testa e fechando a porta.
Alessandro ficou olhando para a porta, desconcertado. Ele achou que deixaria alguém à sua espera, mas dessa vez não tinha tanta certeza. Lívia foi para o terraço, sentou-se na espreguiçadeira e ficou observando o mar, desfrutando o calor daquela tarde e ouvindo aquele sentimento mal resolvido marulhar dentro de si.

[1] Trecho da canção “Samba de verão”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle.

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